À caça
Empurrei a rangente porta de madeira e entrei. Instantaneamente, seguiu-se o silêncio absoluto. Com olhares hostis, os homens na taberna me observaram sem ocultar a desconfiança. Sem dar importância à inimizade dos outros, percorri a distância até uma mesa recolhida no fundo. Puxei uma cadeira e sentei-me no assento de madeira desgastada. Em instantes, fui abordado.
- O senhor deseja alguma coisa? – uma garçonete insinuante indagou. Seus cabelos louros estavam empapados de gordura e ela sorriu com hálito de cebola.
Fitando a mulher com disfarçado desdém, a dispensei com uma recusa. Meus objetivos eram outros e precisava estar vigilante, sem desdobrar a atenção com fatores secundários.
Impaciente, apoiei os cotovelos na mesa e com uma expressão aborrecida, passei a encarar qualquer um que se aproximasse. Aquele ambiente não me agradava e não esperava me demorar muito, contudo, estava à mercê da pontualidade irregular do meu convidado.
- Senhor.
Virei o rosto, e por cima do ombro, encarei o homem. Curvei a cabeça, indicando uma cadeira, e esperei que sentasse. Prontamente obedeceu e foi direto ao assunto.
- Encontrei a tumba.
Estudei suas feições para certificar-me de que não estava mentindo. Ele não teria coragem. Seu respeito por mim na verdade era um meio de esconder seu medo. Compreendia meu trabalho, mas isso apenas lhe servia para fazê-lo mais temente.
- Leve-me até o lugar.
Deixamos a taberna e seguimos a cavalo em direção ao cemitério da cidade. Fomos por uma estrada velha de terra batida, cortando caminho pela floresta e evitando a outra travessia mais longa e com mais movimento. O sol ainda estava alto quando partimos e já estava se pondo quando chegamos.
Adentramos a necrópole, observando as lápides que cobriam toda a extensão de terra. O cemitério fora construído em uma colina, e para onde olhássemos havia tumbas. Ao longe, a capela se erguia humilde e simbólica, e ao seu lado, estava o mausoléu.
- O vampiro se esconde lá dentro, senhor.
- Obrigado, Boris – agradeci. De dentro do cinturão, tirei uma pequena bolsa contendo algumas moedas de prata, e estendi para o homem. – Fez um bom trabalho.
Ele agradeceu e se foi. Tomei partida rumo ao mausoléu, aliviado por finalmente ter descoberto a localização do morto-vivo. Este era um vampiro esperto, que quando soube que era caçado, passou a se esconder em diferentes lugares noite após noite, dificultando o trabalho de encontrá-lo. Quando era necessário um serviço deste tipo, Boris me servia com prontidão.
O ferrolho da porta estava quebrado, logo não foi difícil entrar. Desembainhei a espada e peguei a estaca de madeira que levei presa sob a capa. Era uma tática que muito ajudava. Enquanto desferia golpes com a espada, distraindo o vampiro, fincava-lhe a estaca com sua guarda baixa.
Desci as escadas que me levariam ao centro das tumbas. Por sorte, algumas tochas estavam acesas e iluminavam o local, ainda que precariamente. Vislumbrei a tumba semiaberta, refúgio do vampiro. Aproximei-me com as armas em punho e verifiquei se ele estava lá. Com os braços cruzados sobre o peito, dormia o morto-vivo. Empunhei a estaca, e como se previsse seu fim, ele abriu os olhos.
- Suas últimas palavras?
O vampiro deu um grito agudo e desci a mão, fincando a estaca em seu peito.